sábado, 18 de julho de 2009

Máquina de costuras

Minha tia diz que eu lhe devo respeito enquanto risca o tecido usando os antigos moldes da minha avó. Eu odeio moldes mas digo que sim, que lhe devo respeito, mas que não enquanto ela achar que pode falar qualquer coisa, vou respeita-la no momento em que ela também me respeitar.

Ela fecha a tesoura em um movimento preciso e diz com a voz cortante:

-Quem é você, para eu ter que te respeitar ? Eu só tenho pena de você .

O dia começa assim , por qualquer coisa , por uma fita de cetim , diz ela que eu tenho mania de riqueza , e se eu posso comprar um rolo de fita , porque então não me sustento sozinha e continuo dependendo de esmola alheia. Eu ouço de um tudo, que minha mãe tem um pingo de razão ao ter inventado na delegacia que minha filha sofre abusos sexuais, afinal eu não posso ficar levando minha filha por onde eu ando, que minha filha não pode ficar assistindo tanta pouca vergonha. Diz que não confia em ninguém, muito menos nessa gente de teatro. Que eu não posso ficar dormindo com ela na casa dos meus namorados. Elas imaginam qualquer coisa, elas gostam mesmo é dessa sacanagem que fervilha dentro de suas mentes, gostam das putarias que tanto reprimem aos gritos.

Em uma família de costureiras a retalhação é iminente. Falo enquanto dou o corte inicial, mas depois que a pequena fenda está aberta rasgo o tecido com a força das mãos. Artesanal e brutalmente . Inicio lenta :
-Você tem pena de mim, ótimo. Rasgo firme:
Também tenho pena de você. Ainda há tecido a ser rasgado , mas eu saboreio . Não me importa o que ela diga, mentira. No entanto, mais um rasgo ou buraco não faz tanta diferença já que sou toda retalhada. Já tenho muita prática em me remendar. Ela enfia fundo a agulha:
-Ah, eu não preciso que ninguém tenha pena de mim. Já você depende da minha pena pra viver.
Agora eu a divido no meio. Vontade de ver seu forro aparente, quero vê-la do avesso:
- Prefiro morrer de fome do que morrer sozinha. O sozinha eu disse lentamente como quem borda o nome enquanto o diz mentalmente.

Já era, vai precisar de muita linha pra se remendar , vai ficar quietinha agora, vai me deixar em paz, pelo menos por hoje . É só pra exercitar que ela faz isso , só pra não perder essa mão excepcional de quem já costurou vestidos de noivas e nunca se casou. Num golpe estudado eu a fiz enfiar a agulha na própria carne. Ela implora pelo fim do duelo:

-Cala sua boca ( eu consigo escutar o " pel'amor de Deus") , ou então vai pra rua agora!

Ela se esquece que o aprendiz supera o mestre, e na arte de deferir golpes eu me saio bem, não importando o instrumento , tanto faz: tesouras, facas ou palavras, eu sei ferir como ninguém.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O hálito de urina da árvores

Sempre tentei derrubar aviões com a força do pensamento, mas não imaginava que um dia pudesse ter sucesso, sinto a frustração de quem conseguiu o que não sabia se queria. Nesse último uma menina sobreviveu, porque ficou flutuando a deriva no meio do nada. É assim, não espero nada, me aclimatei ao vazio e ainda assim pressinto que existe um fio nesse labirinto.

Eu tentei , não foi por falta de murro em ponta de faca.
Eu tentei, mas não me restaram paredes depois de tanta cabeçada.
Ouço os ecos da minhas tentativas frustradas: " como atriz você é uma boa escritora", " eu não quero te machucar", " eu estou feliz com ela".

Tento matar minha mão direita, tento adormecer meus demônios de estimação cantando para eles cantigas ancestrais.

Eu só quero um interlocutor, coisa de escritor que precisa de leitores, puro altruísmo. Sempre que uso essa palavra desconfio de que não a empreguei de uma maneira correta, como comportamentos que reproduzo sempre , sempre prejudiciais, mas que nunca questiono e prossigo : equivocada e lúcida. Só o erro tem vez. preciso mesmo de um interlocutor, ou preciso dele, eu preciso? Queria poder precisar. Queria escrever sem essas voltas, sem torna as águas turvas para que elas pareçam mais profundas. Eu conheço a profundidade da minha fossa e falo de amenidade quando queria estar estrangulando pescoços. Vontade de matar tudo o que me mata. Só acredito nesse direito de defesa.

Por isso os aviões. Fiquei assustada , poderia ter sido você. Imagina. Eu te derrubando da leveza e te enterrando na densidade. Eu me sentiria poderosa, mas é melhor assim , ou se não estaria ligada a você pra sempre , sem escolhas.
Sem escolhas. Eu não gosto de pensar, mas não penso, as coisas se movem e eu iria enlouquecer e continuar escrevendo e-mails para esse interlocutor amputado, acreditando com toda fé ou na falta dessa qualquer coisa semelhante, que você continuaria existindo, imaginando você abrindo meus e-mails e as caras que você faria ao ler, talvez um meio sorriso nervoso. Depois de um tempo eu te intimaria a me encontrar , em algum ponto escuro do centro do rio e ia chorar , rir e chorar , você não apareceria, mas isso não é prova da sua inexistência. Ao final da noite bêbada eu vou para o motel mais barato deito em uma cama gelada e cheiro os lençois em busca de vestígios das noites anteriores. Desnecessária busca externa, o corpo sorve os afetos que o marcam dispêndio em acolher uma imagem inesperada. Nas ruas se espalha o hálito de urina das árvores , dentro do quarto o meu corpo exala o seu.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Fruto Estranho

ai de mim. serei eu tão limitada assim? ainda há tempo? A voz diz que sim , a voz.

Não consigo , não transcendo esse " não consigo", eu morro aqui , eu moro aqui , na incapacidade, na incerteza , na indecisão , na insatisfação eu resido. Eu resíduo da negação . Eu sou o que sobrou dos sonhos que me consumiram. Sou a Penélope de todas as Odisséias, meus Ulisses são muitos , e meus tapetes são incontáveis histórias sem fim. Sou predetisnada a espera de algo que está por vir e nunca chega . Noites em claro e os dias sempre claros demais me ofuscam a visão do horizonte, tudo é tão claro que me cega. Eles sempre se vão e eu em vão espero a próxima estação, espero notícias de terras distantes , de outra civilização, outros olhos que me observarão como um bicho raro de asssustadora beleza, um anfíbio que não vive na terra nem na água ,mas que escolheu o ar, escolheu o impossível dentre todas as possibilidades, ser que só poderia ter surgido na contradição que é sobreviver na ausência de condição. Eu não sou fruto da natureza ,sou estranha , estrangeira , sempre forasteira aonde quer que eu esteja.
Um bairro turco da A Berlim Oriental me é mais familiar que essas ruas onde eu nunca me reconheço no outro , onde ando perdida por dentro de mim tentando compreender "por que justo aqui?" Ou então uma ilha Grega a 1 horas de distância de Athenas,que se conecta por uma ponte, onde se come feta e se bebe uozo, pequenos povoados com tradições milenares, onde a verdade é memória. Talvez eu pudesse pertencer a algum lugar desse e me orgulhar , mas como estiar uma bandeira que só me traz vergonha , uma nacionalidade que é sinônimo de prostituta , um estado que é sinônimo de violência e um bairro que é sinônimo de um presídio de segurança máxima, não é um pouco pesado demais pra carregar? Não tenho orgulho nenhum , não é culpa minha, quando nasci as coisas já eram assim, não tenho vergonha de não me orgulhar também. É mentira, tenho sim muita vergonha, por isso minto , porque me foi ensinado que não devemos ter vergonha das nossas mães e dos nossos pais , mesmo que eles sejam feios,fracos e loucos. Como não é certo ter vergonha do lugar de onde se é , mesmo que esse lugar seja um buraco lamacento. Fingir seria a melhor saída , mas é impossível simular satisfação quando a repulsa já transborda, e isso incomoda o outro, que espera sempre um discurso otimista, acontece que a fome devorou o meu último pedaço de esperança e já não me importo em incomodar com a minha expressão de desespero , porque é isso mesmo o que eu vivo e não vou sorrir só porque me alimentam de docês ilusões, mesmo porque minha fome é de carne, carne de verdade.

O não-lugar

Minha casa não existe no Google Earth,
mas mesmo que aparecece eu não poderia
utilizar esses programas que pedem uma conecção
mais veloz, porque os cabos da conecção a cabo ainda
não chegaram aqui, é o que a moça do atendimento diz a três anos: " A sua linha telefônica não possui suporte" , eu insisto : " mas minha senhora, todos os vizinhos possuem, o vizinho do lado , o da frente, o de trás , como pode ser isso?" e ela responde " Me desculpe , mas é o que consta no sistema" . É o bastante para eu odiar esse maldito sistema, não acham?
A questão é que eu não vivo no meio da floresta amazônica, eu moro na periferia do Rio de Janeiro, mas sinceramente preferiria viver no meio da selva e ignorar o mundo aí fora, já que sou ignorada por ele aqui dentro.
A internet aqui em casa era discada, o que me obrigava a só usar depois da meia noite, ainda como nos velhos tempos, torcendo para conectar e sempre com muita paciência esperando as páginas carregarem , sendo impossível baixar filmes ou ver vídeos no youtube, mas agora não tenho do que reclamar, a conta veio altíssima no último mês, e eu não tive como pagar, tudo porque eu andei conectanto durante o dia na ilusão de me sentir parte do mundo . E agora eu que não dou um espirro, vivo mais isolada que os pacientes da gripe suína que permanecem em quarentena com seus note books conectados a rede, rede aqui em casa só a de pendurar na parede, onde eu me balanço para esqueçer que as notícias correm e o mundo gira.
Nesse caso não me sinto neurótica ao pensar que tudo conspira contra mim , pois nem as novas tecnologias 3G funcionam nesse não-lugar, vocês devem pensar porque então não me mudo, não fujo, porque será que eu não saio correndo ? É mais complicado do que parece , e se alguém descobrir não me mande um e-mail porque eu não terei como abrir.
Então, vamos ao cerne da questão: Como fugir de um lugar que não pode existir?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A Senhora do vazio


"No que me torno
Me restrinjo.
Quando aprendo
Me prendo
Nisso
E deixo aquilo.
mas precisar não precisa.
Em vez de rio
E margens rígidas
As correntes marinhas.
O mar no mar."

Dona CLarice Lispector


" A senhora do Vazio" é o título que o José Castello dá ao capítulo dedicado a Clarice no livro "O inventário das sombras", título esse bem dado , pois que ela reside aí , dentro do vazio.
Clarice mora no meio termo secreto das coisas, a sua escrita era uma busca por algo , que uma vez definiu assim: " O que há atrás de detrás do pensamento" , às vezes penso que ela poderia bem não estar falando NADA e nós que embargamos de significado suas brincadeiras com as palavras, mas pensando um pouco mais entendo que é justamente sobre o NADA que ela escreve, e por isso a complexidade , e por isso a beleza. O nada é a busca, é o caminho que não tem fim.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Maldição de Potlatch


Um impulso para o aniquilamento.Em um ritual imcompreensível para nossa sociedade os índios americanos destruíam parte significativamente importante de suas riquezas.
O mesmo ritual foi encontrado em outras culturas,ultrapassando as circunstâncias de contexto cultural. O primeiro a estudar o conceito de Potlatch foi o antropólogo Marcel Mauss, após ele o filósofo Georges Bataille desenvolve e aplica a outros momentos históricos no livro " A parte maldita".
A auto-sabotagem se constrói sobre a ótica de que a maldição traz a glória.
" A dádiva nada significa do ponto de vista da economia geral", analisa Bataille. O exercício de poder perder conduz a uma forma invertida de glória.Hoje esse conceito pode ser encontrado na ostentação social, na supremacia do consumir sobre o produzir, no esbanjamento.

No livro " Inventário das sombras" o crítico literário José Castello dá o título "Maldição de Potlatch" ao capítulo dedicado a Hilda Hilst, que se dizia assombrada, nesse caso quase que literalmente, pois sua vasta obra até hoje não saiu das sombras, como se não existisse.

Eu fiquei surpresa ao saber que isso tinha um nome, porque sempre intuí que esse movimento existia dentro de mim, mas como na infância antes de descobrir a palavra "masturbação" eu achava que só eu sentia, só eu fazia, aí um dia agente descobre que a "coisa" já tem até nome e de certo que muita gente já fez.
Eu tinha 12 anos quando li a palavra masturbação em um livro de educação sexual que minha mãe comprou e deixou na estante do meu quarto sem nada dizer, simplesmente um dia o livro apareceu e me chamou atenção pelos corpos nus, no início eu só dava atenção as figuras e quando já havia devassado todas as imagens fui buscar algo novo nas palavras e encontrei essa: masturbação. Nesse dia eu deixei de ser criança, a "coisa" deixou de ser instintiva e passou a ser um movimento consciente, já que realmente existia, agora eu tinha uma opção. Optei por me explorar e conhecer o gozo. O livro tratava o tema como algo natural, já minha mãe que um dia me surpreendeu em movimentos " suspeitos" de baixo das cobertas discursou longamente sobre a "coisa" como algo ruim, e eu com pena quase falei o nome da "coisa" por desconfiar que ela não soubesse pois não usava a palavra " masturbação".
Bom, o Potlatch é muito presente na minha vida desde a infância, a cada crise da minha mãe era menor a quantidade de móveis na casa, até só sobrarem os cômodos vazios e uma única cama onde dormíamos eu ,ela e meu irmão. Na adolescência vieram as expulsões de casa, saindo sempre com o que eu conseguia carregar (é uma regra que ela impõem com olhos atentos se divertindo em me ver cambalear com o peso da mala quando essa já supera o meu próprio peso).E ao regresso , sim eu sempre volto, não por gosto, mas por falta de opção (será mesmo?), afinal eu tenho uma filha e vocês sabem... não é fácil ( auto-piedade é o pior sentimento que se pode sentir e escrever sobre é Obsceno).
De volta ao doce lar, nunca sinto nem o cheiro das coisas que ficaram ,meu armário vazio de roupas, os livros foram embora junto com a estante revestida de recortes do Prosa & verso , a caixa de cartas agora sofre de amnésia ,a guitarra rosa choque foi doada para a igreja evangélica da esquina. No princípio não lidava bem com as perdas, mas depois de sucessivas ,abracei essa idéia de "glória invertida" dos desvalidos. Existe uma segurança na ruína, a de que nada mais pode ir ao chão, poi não sobrou uma pedra sobre outra. As perdas são o que tenho e não escondo que ostento-as (como a hilda, talvez em busca de alguma glória), entretanto essa "coisa" nova ganhou nome e agora existe de fato, o que me cria a opção de continuar o movimento ou modifica-lo, pois que já existe consciência. Será que existe alguma magia que quebre essa maldição?

Deus é Química!

meus cabelos pedem: alisantes! minha sede pede: coca-cola! minhas axilas precisam: desodorante! meus pulmões aspiram: fumaça! minha tristeza engole: anti-depressivos! minha libído: anti-concepcional! minha coluna: dorflex! meu cérebro grita: anfetamina! minha insônia cospe: soníferos! meu sono bebe: cafeína! meus nervos sugerem: calmante! meus seios choram: implante! meu corpo grita: química!