Minha tia diz que eu lhe devo respeito enquanto risca o tecido usando os antigos moldes da minha avó. Eu odeio moldes mas digo que sim, que lhe devo respeito, mas que não enquanto ela achar que pode falar qualquer coisa, vou respeita-la no momento em que ela também me respeitar.
Ela fecha a tesoura em um movimento preciso e diz com a voz cortante:
-Quem é você, para eu ter que te respeitar ? Eu só tenho pena de você .
O dia começa assim , por qualquer coisa , por uma fita de cetim , diz ela que eu tenho mania de riqueza , e se eu posso comprar um rolo de fita , porque então não me sustento sozinha e continuo dependendo de esmola alheia. Eu ouço de um tudo, que minha mãe tem um pingo de razão ao ter inventado na delegacia que minha filha sofre abusos sexuais, afinal eu não posso ficar levando minha filha por onde eu ando, que minha filha não pode ficar assistindo tanta pouca vergonha. Diz que não confia em ninguém, muito menos nessa gente de teatro. Que eu não posso ficar dormindo com ela na casa dos meus namorados. Elas imaginam qualquer coisa, elas gostam mesmo é dessa sacanagem que fervilha dentro de suas mentes, gostam das putarias que tanto reprimem aos gritos.
Em uma família de costureiras a retalhação é iminente. Falo enquanto dou o corte inicial, mas depois que a pequena fenda está aberta rasgo o tecido com a força das mãos. Artesanal e brutalmente . Inicio lenta :
-Você tem pena de mim, ótimo. Rasgo firme:
Também tenho pena de você. Ainda há tecido a ser rasgado , mas eu saboreio . Não me importa o que ela diga, mentira. No entanto, mais um rasgo ou buraco não faz tanta diferença já que sou toda retalhada. Já tenho muita prática em me remendar. Ela enfia fundo a agulha:
-Ah, eu não preciso que ninguém tenha pena de mim. Já você depende da minha pena pra viver.
Agora eu a divido no meio. Vontade de ver seu forro aparente, quero vê-la do avesso:
- Prefiro morrer de fome do que morrer sozinha. O sozinha eu disse lentamente como quem borda o nome enquanto o diz mentalmente.
Já era, vai precisar de muita linha pra se remendar , vai ficar quietinha agora, vai me deixar em paz, pelo menos por hoje . É só pra exercitar que ela faz isso , só pra não perder essa mão excepcional de quem já costurou vestidos de noivas e nunca se casou. Num golpe estudado eu a fiz enfiar a agulha na própria carne. Ela implora pelo fim do duelo:
-Cala sua boca ( eu consigo escutar o " pel'amor de Deus") , ou então vai pra rua agora!
Ela se esquece que o aprendiz supera o mestre, e na arte de deferir golpes eu me saio bem, não importando o instrumento , tanto faz: tesouras, facas ou palavras, eu sei ferir como ninguém.
por minha cabeça não passava
5 horas atrás

